Muitas vezes guardamos tanta coisa só para nós - opiniões, sentimentos, ideias, estados de espírito, reflexões, pequenos textos que escrevemos e ficaram arrumados numa gaveta fechada...


Eu decidi abrir essas gavetas, e o resultado é este blog!




How many times we keep things for our own – opinions, feelings, ideias, moods, reflections, some little texts we wrote and put on a closed drawer…

Now I have decided to open those drawers, and this is the result!



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sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Uma "casa" longe de casa

Estávamos em pleno verão. O tempo estava quente mas, mais quente que o tempo, estava a minha bebé de apenas 4 meses, com quase 40 graus de febre!
Levei-a ao hospital local, onde me pediram que lhe desse banho para ver se a febre baixava. Não resultou. Com uma carta de recomendação, uma espécie de passaporte ou bilhete de entrada directa, dirigi-me então ao serviço de pediatria do hospital para o qual nos tinham enviado.
Tal como eu, havia mais mães e pais que aguardavam ser chamados, ou por resultados de exames e análises, e que se encontravam ali há horas.
Quando nos vemos nestas situações, temos que estar psicologicamente preparados para tudo – para a espera, para o mau humor de certos médicos, para vermos aquilo que preferíamos não ver.
Ainda hoje me lembro da minha pequenina a ser espetada na cabeça (procedimento perfeitamente normal mas que nem por isso deixou de me chocar) para lhe ser retirado sangue para análises, a chorar sem parar.
Depois de ouvir da médica que nem sequer lá deveríamos ter ido, porque era só uma febre de dois dias e não era possível saber o que tinha, lá receitou um antibiótico e regressámos a casa de madrugada. Foi uma situação rotineira, um susto, mas nada de grave.
Mas imaginem casos mais complicados, crianças com doenças graves ou prolongadas, que têm que se deslocar constantemente a hospitais, que muitas vezes ficam longe das suas casas, para receberem tratamentos, ou que se encontram hospitalizados. Podem ali permanecer dias, meses e até anos.
Imaginem o impacto que uma situação dessas pode causar na vida familiar dessas crianças.
Imaginem o estado psicológico dos familiares que passam a “viver” no hospital, a observar todo o tipo de situações que ali decorrem, muitas vezes dormindo em cadeiras, mal se alimentando, só para ficarem perto dos filhos.
Nem sempre esses pais têm condições financeiras que lhes permitam suportar os custos de um alojamento que, nem sempre, se localiza próximo do hospital.
Foi com o intuito de ajudar estas pessoas que surgiu o conceito de “casa longe de casa”.
Existem actualmente algumas instituições que o aplicam e criaram instalações para esse fim, tanto em Portugal como no resto do mundo.
Em Portugal, a Fundação Infantil Ronald McDonald foi criada em 2000, e a primeira Casa Ronald McDonald construída junto ao Hospital D. Estefânia, em Lisboa.
Nesta casa, tudo é feito para que as famílias das crianças se sintam como se na sua própria casa estivessem, funcionando como um refúgio permanente em ambiente familiar, onde podem contar com apoio moral, conforto, ajuda, carinho e atenção, promovendo e realizando iniciativas que contribuam tanto para o bem-estar das crianças, como das suas famílias.
A casa é constituída por quartos individuais, casas de banho, cozinha onde podem preparar as suas refeições, lavandaria, salas de estar e jantar.
É uma forma de os pais e familiares das crianças internadas ou em tratamento as acompanharem nesse processo, contribuindo para uma mais rápida recuperação das mesmas.
Actualmente, existem mais de 200 Casas Ronald McDonald espalhadas por todo o mundo.
No Brasil, por exemplo, mais precisamente no Rio de Janeiro, a primeira casa data de 1994, representando uma alternativa de residência temporária próxima dos hospitais, que visa apoiar e humanizar o tratamento de crianças e adolescentes com cancro ou doenças crónicas, oferecendo hospedagem, transporte, alimentação e suporte psicossocial, tanto às crianças como às famílias que se vêem, de repente e por tempo indeterminado, longe de casa.
Para além de recreação, terapias e apoio psicológico, são também promovidas actividades profissionalizantes e cursos para os acompanhantes.
Como qualquer instituição, estas casas dependem de donativos, campanhas e eventos, do trabalho voluntário, e acções de consciencialização e angariação de fundos, para que possa continuar a ajudar aqueles que precisam.
E porque nunca se sabe se algum dia iremos precisar de recorrer a uma casa longe da nossa casa, aqui fica a mensagem!   

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Haja Paciência

                       

Marcava o relógio 17h11m, quando me dirigi ao atendimento do SAP (Serviço de Atendimento Permanente), a fim de marcar uma consulta para a minha pessoa.
Tendo perfeita consciência de que uma mera dor de ouvidos, embora muito incomodativa, não era um caso urgente, não deixei por isso de tentar “adiantar o serviço”!
Era domingo, tinha tempo disponível, e poderia muito bem esperar para ser atendida, evitando assim perder tempo e faltar umas horas ao trabalho hoje, para ir à Unidade de Saúde Familiar a que pertenço.
E mesmo já calculando que, provavelmente, nenhuma das farmácias da vila estaria ontem disponível (porque infelizmente aqui no concelho, temos uma espécie de sorteio, e cada dia do fim de semana calha a farmácias diferentes, o que quer dizer que talvez num fim de semana por mês tenhamos sorte), pelo menos já saía de lá com uma receita pronta a “aviar” hoje às 09 horas!
Ora, já sabemos que quando vamos aos hospitais e serviços afins, convém irmos preparados para esperar, e guarnecidos com uma boa dose de paciência.
Posso dizer que já estou física e psicologicamente treinada para isso, não só pelas inúmeras vezes que o tenho que fazer no meu trabalho, como muitas outras em que me dirigi ao referido serviço.
Ontem talvez tenha batido o meu recorde de tempo de espera – mais de 3 horas!
Como é óbvio, algumas pessoas já cansadas e desesperadas, começaram a reclamar. É que aqui, não existe triagem, nem grandes prioridades.
À excepção daqueles que vêm, trazidos por ambulâncias (que têm prioridade sobre quaisquer outros) só entra, sem esperar pela sua vez, quem estiver perto de desfalecer, ou a sangrar, e mesmo assim, não é garantia de saída rápida. Muitas vezes entram, mas ficam deitados em macas, ou sentados, à espera que alguma enfermeira os venha tratar ou medicar. E depois disso, continuam a aguardar, por um intervalo entre consultas, para o médico o examinar.
Claro que, como em tudo na vida, mais vale “cair em graça do que ser engraçado”, e não se percebendo muito bem porquê, lá ouve dois ou três casos bem sucedidos, em que chegaram depois e foram atendidos primeiro.
Isso revolta quem ali aguarda, naquela minúscula sala apinhada de doentes, durante horas, ouvir o médico finalmente chamar o seu nome!
E como demora, sermos chamados! É que existem apenas duas salas para dois médicos, mas não sabemos o que se passa lá dentro, porque se é certo que se vêem os doentes a sair das mesmas, já para os seguintes entrarem chega-se a esperar quase 20 minutos! Mistério…
Por entre protestos, ânimos exaltados e reclamações (em grande parte dos acompanhantes e não propriamente dos doentes), foi-se passando o tempo, sem nada mais com que nos ocuparmos.    
Eram 20 horas. Continuava sentada na mesma cadeira, e começava a incomodar-me ver duas ou três pessoas que mal se aguentavam, não serem chamadas sequer por uma enfermeira.
Mas enfim, estava na hora do jantar, e da troca de médicos, o que atrasa sempre um bocadinho o serviço (como se não estivesse já suficientemente atrasado)!
Finalmente fui chamada! Entrei, despacharam-me em menos de 10 minutos e lá saí eu, já perto das 20h30m, com a tão desejada receita na mão!
Deixando no meu lugar outras tantas pessoas que, possivelmente, passariam lá boa parte da noite.   

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Portugal em Insolvência

Ando eu todos os dias a ver as notícias que por aqui andam e não pude deixar de concordar com as palavras que um administrador de insolvência de uma empresa escreveu "infelizmente, insolvente está o país..." E tal como se diz, a palavra de ordem é "corta" - corta aqui, corta ali, corta isto, corta aquilo...parece que neste regresso às aulas o material a comprar será tesouras! Não, porque para estes cortes não são necessárias!
Eu de política não percebo nada, nem tenho intenções de perceber. Também não fiz nada para escolher quem iria governar, porque na minha opinião qualquer um que vá para lá, fará sempre o mesmo. Por isso não tenho agora o direito de reclamar, mas concordo quando dizem que não precisamos de um contabilista para o nosso país, precisamos de mais do que isso.
E neste momento, parece-me estar realmente perante um contabilista, que tenta equilibrar o país pondo 90% de responsabilidade nos cortes a quem já pouco tem, e 10% de cortes no resto. Ainda ontem estava a ouvir na televisão as medidas de austeridade num qualquer país da União Europeia, no qual se aumentava o IVA para 21%, e a idade da reforma para os 65! E pensei eu cá com os meus botões, Portugal já há muito que não sabe o que isso é, Portugal já faz mais do que sacrifícios, mas para certos políticos, ainda não chega, ainda exigem mais.
Depois vem a chanceler alemã, Angela Merkel, dizer que Portugal deveria igualar o n.º de horas de trabalho, o n.º de dias de férias e a idade da reforma aos outros países da União Europeia! Concordo plenamente com ela, igualemos então isso, mas igualemos também o resto - os ordenados, as condições de vida, os acessos à saúde e todas as outras coisas para as quais ainda estamos tão atrasados.
Sinceramente, não sei o que nos reserva daqui para a frente, penso que muitos mais sacrifícios iremos fazer, muito mais dificuldades iremos passar, muitos mais cortes, muitos mais impostos e tudo o que necessário seja, para que não se tenha que ir incomodar os mais endinheirados (porque supostamente em Portugal não há ricos, embora haja quem diga que em Portugal basta terem um bocadinho mais de dinheiro para serem apelidados de ricos) que fazem falta ao nosso país. Porque se esses se sentirem incomodados, fogem, e lá se vai o investimento e o dinheiro de Portugal!
Nesses não lhes podemos tocar, nem incomodar com impostos.
Acho piada (sem piada nenhuma), investirem na diminuição do trabalho infantil e do analfabetismo - passar a exigir como escolaridade obrigatória o 12º ano, incentivarem as famílias a porem os filhos a estudar, para um futuro melhor.
Ao mesmo tempo, encerram-se escolas, despedem-se professores, cortam as verbas e o apoio para a educação - qualquer dia, em vez de serem os pais a receber ajuda para compra de livros e material, são os pais a ajudarem as escolas a terem material e a continuarem em funcionamento!
E se sair muito caro, nem sequer pôem os filhos na escola. Paciência, antigamente também não estudavam tanto e não morreram por isso. Que lá andem os filhos daqueles que não fazem nada e têm rendimentos mínimos garantidos e ajudas e subsídios e que não pagam nada.
Em vez de se investir na saúde, encerram-se hospitais, maternidades, serviços - ficamos com o INEM e ambulâncias. Isto se não estiverem paradas por falta de combustível, à espera de verbas que nunca chegarão.
Chegámos ao ponto de os hospitais pedirem aos doentes para levarem medicamentos de casa, de pedirem a outros hospitais material que não têm!
E depois esta linda ideia das vacinas, que até podem fazer parte do plano nacional de vacinação, mas quem quiser que as pague, porque o estado não vai comparticipar tais desperdícios. Se alguém morrer, melhor, menos um para o estado se preocupar!
Quantos mais morrerem melhor, daí os cortes na saúde, na segurança social, etc, etc... Viva à falta de dinheiro, viva à falta de cuidados, viva à falta de condições, viva à falta de tudo o que o simples trabalhador não conseguirá com o quase suplicado ordenado que sabe-se lá continuará a receber ou não!
E para os que estão desempregados ou pensam vir a trabalhar, esqueçam. A palavra de ordem é reduzir pessoal, todos os dias mais e mais pessoas ficam desempregadas, mais subsídios de desemprego serão cortados, e menos oportunidades de trabalhar haverão. Por isso se não tiverem como sobreviver, morram também que não fazem cá falta!
Só não consegui perceber muito bem qual é a ideia - a intenção era promover e incentivar as pessoas a terem filhos, para aumentar a população jovem que escasseia em Portugal, e daí tem toda a lógica retirar comparticipações nos contraceptivos. Quem quiser, vá ao centro de saúde, em meia dúzia de dias esgotam e já está. Não há dinheiro para comprar, passamos ao surto de nascimentos.
Por outro lado, um aborto é 100% pago pelo estado, por isso vamos lá abortar, e resolve-se o problema.
Portanto, matamos os que já cá estão, e os que viriam a estar!
Enfim, um verdadeiro país insolvente, em que em primeiro lugar vêm os ricos, políticos e afins, e cá bem no fim da lista, já sem esperança de ver alguma luz ao fundo do túnel, os quase dez milhões de portugueses!
Assim vamos nós, por cá!