Muitas vezes guardamos tanta coisa só para nós - opiniões, sentimentos, ideias, estados de espírito, reflexões, pequenos textos que escrevemos e ficaram arrumados numa gaveta fechada...
Eu decidi abrir essas gavetas, e o resultado é este blog!
How many times we keep things for our own – opinions, feelings, ideias, moods, reflections, some little texts we wrote and put on a closed drawer…
Now I have decided to open those drawers, and this is the result!
“Gosto de estar sozinha…mas não gosto de me sentir sozinha”
Talvez algumas pessoas não compreendam porque, tantas vezes, desejo estar sozinha, porque gosto e me sinto bem sem companhia. E eu respondo: porque estou quase sempre acompanhada! No trabalho ou em casa, são raros os momentos em que não tenha companhia. E depois faz-me falta estar algum tempo sozinha, dedicar-me a mim, aos meus pensamentos, às minhas reflexões, e até àquelas tarefas que se fazem melhor quando não estamos acompanhadas.
Por outro lado, compreendo que, quem passe a maior parte do seu tempo sozinho, goste de se rodear de pessoas e conviver, de forma a compensar esse isolamento.
Eu própria gosto muito de conversar, conhecer pessoas e conviver com aquelas com quem me identifico, tal como adoro a companhia das pessoas que fazem parte da minha vida.
Mas há uma diferença entre estar sozinha e me sentir sozinha.
Na verdade, posso passar a minha vida toda acompanhada por inúmeras pessoas e, ainda assim, me sentir completamente só.
A solidão, é mais do que um sentimento de querer companhia de alguém, é uma profunda sensação de vazio, uma carência de algo novo que nos transforme.
Estarmos sozinhos, em algum momento da nossa vida, por circunstâncias da vida ou por opção, pode ser uma experiência positiva, saudável e enriquecedora.
No entanto, quando nos sentimos sozinhos, sentimos que não temos ninguém com quem partilhar a nossa vida, que não temos ninguém que nos compreenda, ninguém que nos ame…A partir daí, começamo-nos a sentir inseguros, inúteis e insignificantes, a nossa auto-estima baixa e ficamos com a sensação que não fazemos falta a ninguém.
A falta de amizades verdadeiras, de pessoas com quem nos possamos identificar de alguma forma, a perda de alguém, o afastamento do nosso círculo social, ou a falta de profundidade dos relacionamentos, pode levar as pessoas à solidão. Solidão essa que, por sua vez, pode desencadear a depressão.
Tenho momentos em que me sinto sozinha, em que penso como era bom ter feito mais amizades ao longo da minha vida, em que me condeno por não ter muitos objectivos nem ser ambiciosa, em que me apetece conversar e nem sempre tenho alguém para me ouvir, alguém que me compreenda e aos meus sentimentos…
Mas, nesses momentos, penso na minha filha, nos meus pais (que moram mesmo aqui ao lado), na minha família mais chegada, no meu namorado, nas poucas amizades que tenho, e chego à conclusão que não tenho por que me sentir sozinha, porque não estou!
E como qualquer mãe galinha, tenho um desejo enorme de a proteger de tudo e de todos os que a possam magoar, seja de que maneira for.
Claro que só quero o melhor para ela, mas nem sempre protegê-la do mundo, criando uma redoma à sua volta, é a melhor forma de o demonstrar.
Há que deixá-la viver, experimentar, enfrentar as dificuldades e prepará-la para que, sozinha, sem estar na sombra de outros, consiga sobreviver nesta selva em que vivemos – desenvolvendo a sua autonomia, as suas capacidades, o seu poder de luta, aprendendo a se defender, se necessário for, e a resolver os seus problemas.
Com algumas reservas minhas, mas ao mesmo tempo ciente de que seria benéfico para ela, começou a frequentar o Jardim de Infância com 4 anos e hoje, com 7, está no 2º ano, numa escola pública onde, juntamente com ela, se encontram mais de 600 crianças.
Tal como neste vídeo, todos os dias ela se levanta, veste aquela roupa que tão carinhosamente escolhi para ela, toma o pequeno-almoço e vai para a escola.
Pelo que me apercebo, não tem muitas amigas, embora para ela todas as colegas sejam amigas. Até mesmo aquelas que a rebaixam, ou só a querem por perto por interesse.
Mas não me preocupa o facto de ter poucas amigas. Eu também não tive muitas. Na verdade, apenas duas, que me acompanharam durante os vários anos em que estudei.
Preocupa-me sim, que ela venha a ter inimigas! Não por algo que ela tenha feito de mal, até porque para quem pratica o “bullying”, não existe uma motivação aparente e, muitas vezes, quando a há, nem sempre está directamente relacionada com a vítima.
Outras, como foi o meu caso, surgiram na sequência de uma resposta que, provavelmente, aquelas pessoas não esperavam ouvir.
Ia para o 10º ano, tal como uma das minhas amigas que era da mesma turma que eu – éramos “caloiras” e não conhecíamos ninguém naquela escola.
Ao contrário daquelas três raparigas, que frequentavam o 11º ano e já conheciam meio mundo.
Sempre muito tímidas e não gostando de confusões, guerras ou discussões, tivemos um ano bastante complicado, em que a violência psicológica foi presença constante.
Cada vez que as avistávamos, ainda que bem longe, já os nervos davam sinal, e só queríamos que aquele instante que se aproximava passasse depressa.
Desde insultos, a comentários depreciativos, e até mesmo uma vez em que entraram na nossa sala de aula para nos danificarem o material escolar, os sentimentos que mais habitavam dentro de nós eram pavor, medo, ansiedade…
Dia após dia, éramos “empurradas” para aquele ambiente hostil, que muitas vezes nos levava ao desespero, e a pensar em desistir de estudar, só para o pesadelo acabar.
Felizmente, esta violência caracterizada pela prática de actos intencionais e repetidos, neste caso em grupo, foi apenas psicológica. Nunca houve agressões físicas.
Mas não são poucos os casos em que somos vítimas de vários tipos de práticas, não só físicas (agredir, bater), mas também verbais (gozar, insultar, apelidar), materiais (roubar, destruir pertences ou danificando objectos pessoais), psicológicas (intimidar, ameaçar, perseguir, aterrorizar), e até mesmo, mais recentemente, virtuais!
Praticados em grupo, ou por uma só pessoa, estas situações ocorrem com maior frequência nas escolas, sempre fora da visão dos adultos, e normalmente as vítimas não reagem, nem tão pouco falam sobre as agressões de que foram vítimas.
Os agressores têm, geralmente, personalidades autoritárias, uma absurda necessidade de controlar ou dominar e são, algumas vezes simultaneamente, agressores e vítimas.
Contudo, não é um problema exclusivo das escolas, podendo acontecer em qualquer meio, como no local de trabalho ou entre vizinhos.
E as consequências não se fazem esperar – dor, angústia, irritação, ansiedade, stress, nervosismo e tristeza anormais, podendo, nos casos mais graves, levar à depressão, problemas psíquicos e até mesmo ao suicídio.
É importante não ignorar, não nos convencermos que tudo isto faz parte da vida e que há-de passar, mais cedo ou mais tarde.
Mais grave ainda que ser uma vítima de “bullying”, é vermo-nos sozinhos, é não sabermos a quem recorrer, a quem pedir ajuda, com quem conversar. É vermos as pessoas esconderem a cabeça na areia como avestruzes, ou virarem costas, como se de um perfeito disparate, inventado por alguém que apenas pretende chamar a atenção, se tratasse.
Lembro-me de não querer continuar a estudar, de pensar em desistir. A minha amiga fez apenas o 10º ano e ficou por aí. Já eu, fui “obrigada” pelos meus pais a continuar – passei para o 11º ano, o que significava ter que enfrentar durante um ano inteiro, e completamente sozinha, aquele inferno.
Muito embora o meu pai sempre me tenha dito que a melhor forma de lidar com esse tipo de pessoas é ignorando, não mostrando medo, nessa altura eram as últimas coisas que eu conseguia fazer.
Mas ter o 11º ano ou ter o 9º, ia dar no mesmo. E os meus pais queriam o melhor para mim, queriam que eu estudasse, para no futuro ter melhores oportunidades. Para isso era necessário ter, pelo menos, o 12º ano! Como hoje lhes agradeço essa imposição!
Felizmente, aquele ano passou-se, tal como passou o seguinte (muito melhor porque nessa altura já as ditas raparigas tinham deixado a escola secundária).
Hoje, olhando para trás, quando as vejo casadas e com filhos, penso se de facto teriam consciência daquilo que tanto gostavam de fazer, ou se seria uma rebeldia da adolescência.
Hoje, não procuro detectar uma situação semelhante em cada esquina, mas tento ficar atenta, para que a minha filha não venha a passar pelo mesmo que eu.
Para que, se um dia isso acontecer, eu possa compreendê-la, ajudá-la, e dar-lhe todo o meu apoio, na luta contra esta dura realidade!